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Blitz flagra falsos fisioterapeutas Em quinze dias de blitz em Goiânia, fiscais do Conselho Regional de Fisioterapia e Terapia Ocupacional, com sede em Belo Horizonte, identificaram irregularidades em mais de dez clínicas de fisioterapia e quarta-feira, 6 de julho de 2000 prenderam em flagrante uma pessoa por exercício ilegal da atividade. A auxiliar de serviços gerais Eunice Pires de Araújo, 50, foi levada ao 8º Distrito Policial para esclarecer porque atendia pacientes como fisioterapeuta, no Estádio Serra Dourada, para o Conselho Estadual de Esportes. Há 15 anos ela deixou de fazer a limpeza do Estádio e passou a atender como fisioterapeuta, recebendo um salário mínimo. Por dia, passavam pelas mãos dela cerca de oito pacientes. Na sala em que Eunice atendia, as condições são as mais precárias. Os colchões estão rasgados e não há lençois ou fronhas. A roupa de cama tem de ser levada pelos pacientes, assim como os remédios e o gel usado para a ultrassonografia. Para a realização de hidromassagem por turbilhonamento, ela contava com uma banheira de péssima aparência, onde a água vaza e fica empoçada pelo chão. Sem a orientação de um profissional especializado, era Eunice quem decidia pela utilização de ultra-som de calor profundo, ou dos dois Fornos de Bier, que aquecem o corpo do paciente. "A utilização indiscriminada desses aparelhos pode atrofiar membros", frisou o fiscal Roberto Márcio Sena. Os fiscais lavraram um auto próprio do conselho e vão remeter copias à Vigilância Sanitária recomendando o fechamento da sala. Curso Eunice se defendeu dizendo que não sabia da necessidade de ser formada para trabalhar como fisioterapeuta, admitindo que nunca fez qualquer curso. "Quando me tiraram da limpeza e me mandaram para cá, não havia essa exigência e eu aprendi na prática, com um amigo que me ensinou tudo que sei", afirmou. Sobre as condições de trabalho ela lembrou que a responsabilidade não é dela e que a precariedade se espalha pelas dependências do estádio. Próximo da sala de fisioterapia, as instalações são visivelmente precárias e o ambiente tem pouca iluminação. Eunice confirmou que tratava de problemas nos joelhos, coluna, tornozelos e outras partes do corpo. Os pacientes que procuravam por ela eram todos do Serviço Único de Saúde (SUS), que não podiam pagar por sessões particulares de fisioterapia e não conseguiam tratamento pelo SUS em outro local. "Os pacientes nunca reclamaram do tratamento porque faço com amor e carinho", disse. Na delegacia, os responsáveis pelo Conselho Estadual de Esportes, que acompanharam Eunice durante o depoimento, disseram aos fiscais que vão corrigir as falhas e contratar profissional especializado. Eles preferiram não comentar o assunto. Tratamento inadequado pode causar até paralisia Surpreso com a informação de que tratava de um problema na coluna com alguém sem o devido preparo, o eletricista José Ferreira da Silva, 43, disse que pagou 50 reais por 20 sessões de fisioterapia na Serra Dourada com Eunice. "Antes eu me tratava com uma fisioterapeuta, mas, além de não ter o resultado que esperava, tinha de pagar 10 reais por sessão; aí meu irmão me falou para vir aqui que saía mais barato, e o engraçado é que melhorei", contou. Ele foi orientado pelos fiscais de que o barato poderia sair muito caro depois. De acordo com o presidente da Associação Goiana de Fisioterapeutas, Danilo Augusto dos Santos, o tratamento inadequado de uma hérnia de disco, por exemplo, pode deixar o paciente paraplégico. Ele salienta que que a atuação do conselho pde moralizar o exercício da atividade em Goiânia. "A cidade ficou à margem da fiscalização por muito tempo e essa atuação é positiva para que a legislação que veda o exercício de procedimentos fisioterápicos por pessoas não habilitadas seja respeitada", afirmou. Criança E a situação de precariedade encontrada no Serra Dourada não é uma exclusividade apenas da sala de fisioterapia do estádio. Os três fiscais do Conselho já visitaram aproximadamente 20 clínicas de Goiânia e viram muitas irregularidades nelas. Dez não tinham nem registro, mas o mais grave, ressaltaram os fiscais, foram a ausência de fisioterapeuta, número reduzido de profissionais e utilização de leigos nos procedimentos ou apenas a presença de médico-ortopedista, sem um fisioterapeuta. Ele alertou que existem serviços de fisioterapia gratuitos, mantidos pelo SUS e com bons profissionais. "Se alguém se passa por fisioterapeuta, não tem formação e ainda indica os remédios necessários, significa que está no exercício ilegal também da profissão de médico", concluiu. Outro exemplo dos problemas foi encontrado em uma 'línica na cidade onde um ortopedista deixava os procedimentos de fisioterpia nas mãos de três assistentes que utilizavam equipamentos enferrujados. Segundo Roberto Sena, uma criança foi encontrada passando, sozinha, o aparelho de ultrasonografia no braço, o que, segundo ele, inadequadamente, pode causar lesões. As irregularidades foram fotografadas pelos fiscais. Como o ortopedista não quis se identificar nem reconhecer o trabalho do conselho, Sena disse que a clínica será autuada e comunicada da decisão por correspondência. As clínicas autuadas terão dez dias para se defender no Conselho Regional de Fisiterapia. De acordo com o sfiscais, os que não se justificarem serão denunciados ao Ministério Público. "Muitos recém-formados também estão no mercado sem o devido registro", afirmou Sena. Ele salientou que outras pessoas que forma flagradas no exercício ilegal da fisioterapia serão denunciadas à polícia e ao Ministério Público.
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